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 Temas nietzcheanos na arte e no livro de Eclesiastes

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Ronaldo
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MensagemAssunto: Temas nietzcheanos na arte e no livro de Eclesiastes   5/6/2008, 4:53 pm

Eu gostei muito de um texto de um blog americano, o Wine, Cheese and Theology, sobre Nietzche e Eclesiastes, e, autorizado pelo seu autor, o Justin, traduzi para o português, postei no meu blog e vou deixá-lo aqui também:




NIETZCHE x ECLESIASTES


Eu tenho escrito e pensado bastante sobre alguns temas nietzcheanos na arte e no livro de Eclesiastes.

Ambos dizem que nós deveríamos desfrutar a vida aqui e agora. Ambos apontam contradições e dilemas na vida.

Nietzche propõe uma experimentação intelectual na sua doutrina do Eterno Retorno.

E se - ele especula - o conjunto da história é cíclico, e você fosse destinado a viver a sua vida repetitiva e exatamente da mesma maneira? Ele diz o seguinte:

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: "Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência - e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez - e tu com ela, poeirinha da poeira!". Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: "Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!" Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: "Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?" pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela? [1]

Trevor Hart explica a doutrina de Nietzche desta maneira:

A idéia do eterno retorno funciona como um tipo de iluminação daquilo que realmente significaria aceitar completamente a falta de sentido e propósito no mundo. Viver sem uma metanarrativa , liberado do sonho moderno e cristão de uma realidade diferente daquela que de fato aí está, deveria significar, por outro lado, ser capaz de afirmar a totalidade da vida tal qual ela é.

Nietzche não está atrás de uma saída, um escape, para aquilo que seria uma maldição na vida. Ele busca um tipo de aceitação, ou afirmação desta vida, por amor ao destino.

O livro de Eclesiastes abre com o Professor, Qohelet, anunciando que tudo é hebel. Esta palavra pode ser traduzida como "vaidade", "vapor", ou "inútil". O erudito Michael Fox a traduz como "absurdo". Fox trabalha sobre a definição de absurdo dada pelo filósofo existencialista Albert Camus. Para Camus, o Absurdo é a desconexão entre pretensão e realidade, entre aquilo que nós esperamos ser o caso, e o que ele realmente é. Para Camus, é um fato empírico que nós esperamos certas coisas do mundo. Nós temos um desejo, ou uma aspiração por justiça, para dar um aspecto pessoal ao universo, e para que as coisas façam sentido. Mas não é isso que nós constatamos. Em vez disso, nós encontramos um mundo cheio de injustiça, e o universo é profundamente indiferente à nossa presença.

Da mesma maneira, em Eclesiastes, Qohelet explora as áreas da vida em que a pretensão se desliga da realidade. Nós pensamos que o conhecimento e a sabedoria deveriam levar à felicidade, mas, em vez disso, eles geralmente terminam em tristeza (1:16-18 ). O prazer deveria levar à felicidade, mas ele é passageiro e, em última instância, descartável (2:1-3, 2:10-11). O trabalho deveria levar à plena satisfação, mas, em vez disso, nós descobrimos que as suas recompensas são passageiras quando comparadas ao esforço que colocamos para ganhá-las (2:4-8, 18-19, 21). Não somente o nosso trabalho é passageiro e temporário, mas nós também somos; a morte é inescapável (2:16, 3:21). A justiça deveria ser recompensada e a maldade punida (8:12-13), ainda que freqüentemente parece que as coisas funcionam da maneira contrária (3:16-21, 4:1-3, 7:15, 10:7). Talvez a desconexão última resida no fato de que "[Deus] colocou a eternidade no coração do homem, ainda que ele não possa descobrir a obra que Deus fez do início até o final" (3:11). De alguma maneira, nós ansiamos ou esperamos "eternidade" dentro desta vida. Nós não conseguimos, como Camus diz, "reduzir o mundo a um princípio racional" ou explicar todos os meandros aleatórios da vida (as suas injustiças, dúvidas, opressões e sofrimentos). O mundo é simplesmente muito grande para nós organizarmos tudo e somos finitos por natureza (3:1-8, 8:6-7, 8:16-17, 9:11-12).

Entretanto, antes de se desesperar, Qohelet conclui que Deus, no meio de tantos absurdos, em tempos finites, concede alegrias temporárias. Esses prazeres passageiros existem para serem desfrutados como dons (2:24-25, 3:12-13, 22, 5:18-20, 8:15, 9:7-9). Desta maneira, podemos abraçar a nossa humanidade com a sua temporalidade, finitude e mesmo o sofrimento. E nós fazemos isso quando desfrutamos esses dons com gratidão e esperança.No fundo, nós encontramos uma fé fundamental nos escritos de Qohelet, apesar dos absurdos da vida. Nós somos capazes de desfrutar os prazeres temporais da vida precisamente porque nós sabemos que eles vêm de Deus. Além disso, ainda que seja verdade que, da nossa perspectiva, o mundo é absurdo, Qohelet advoga uma fé no Deus que tem uma visão muito mais abrangente (5:1-7, 12:13-14). Dons que se evaporam, prazeres fugitivos e belezas que se desvanecem são vista como apropriadas para o nosso "quinhão" na vida em virtude da distinção entre Criador e criatura.

Assim é quando Qohelet focaliza a natureza cíclica da vida (1:4-11, 12:7, 3:15). Ele ao mesmo tempo abraça um elemento prospectivo e esperançoso. Mesmo que seja verdade que, do nosso ponto de vista, a injustiça reina, o prazer seja uma ilusão, e os paradoxos abundem, nós temos a idéia de que Deus está sempre disposto a algo muito maior do que nós possamos conceber. "Então contemplei toda obra de Deus, e vi que o homem não pode compreender a obra que se faz debaixo do sol; pois por mais que o homem trabalhe para a descobrir, não a achará; embora o sábio queira conhecê-la, nem por isso a poderá compreender" (8:17). "Não há nada melhor para o homem do que comer e beber, e fazer que a sua alma goze do bem do seu trabalho. Vi que também isso vem da mão de Deus" (2:24). De novo, Qohelet justapõe essas duas realidades, frisando os absurdos da vida e então nos aconselha a desfrutar o nosso quinhão na vida (não menos que seis vezes, pelas minhas contas, nos capítulos 2 a 9). Finalmente, ele finaliza o livro com a admoestação de temer a Deus e uma referência ao juízo final (12:13-14). Peter Leithart coloca as coisas da seguinte maneira:

Como acontece nos capítulos finais de Jó, Eclesiastes ensina que há mais coisas no céu e na terra do que aquilo que é sonhado na nossa filosofia ou teologia, que Deus se propõe a muito mais do que nós possamos conceber e que, limitados e finitos como somos, é tão-somente natural que o nosso entendimento do padrão a história é parcial e o nosso controle da vida é limitado... a alegria salomônica é um hedonismo que nasce da confiança de que o mundo está sempre debaixo do controle de Yahweh.... em vez de se impacientar com a nossa finitude e ansiedade por sermos deuses, Salomão aconselha que nós devemos nos regozijar no nossos limites e em toda a efêmera vida que nos foi dada.

Então, qual é a diferença fundamental entre Nietzche e Qohelet? Nesses dois pensadores nós encontramos imperativos idênticos com indicativos opostos. Para Nietzche, nós devemos desfrutar a vida (imperativo) porque ela é tudo que existe (indicativo). Para Qohelet, nós devemos desfrutar a vida (imperativo) precisamente porque aquilo que nós vemos não é tudo o que existe (indicativo).

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[1] NIETZCHE, Friedrich. A Gaia Ciência. São Paulo: Nova Cultural, Círculo do Livro, 1996. Coleção "Os Pensadores", p. 193
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