Fórum Adventista

Não se opor ao erro é aprová-lo, não defender a verdade é suprimi-la !
 
InícioInício  FAQFAQ  BuscarBuscar  MembrosMembros  GruposGrupos  Registrar-seRegistrar-se  Conectar-seConectar-se  

Compartilhe | 
 

 Só conhecimento não basta

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo 
AutorMensagem
Ronaldo
Administrador
Administrador


Mensagens : 261
Data de inscrição : 13/04/2008

MensagemAssunto: Só conhecimento não basta   3/6/2008, 1:34 am

TER DOIS OLHOS EM TERRA DE CEGO

Mais de quinze mil páginas e cinqüenta anos de preparo.

O Oxford English dictionary corresponde a aproxidamente (em número de páginas) cinco dicionários Houaiss, o mais completo em Língua Portuguesa. A macmillan company escolheu para editor do projeto o Dr. James Murray, presidente da Sociedade de Filologia da Inglaterra. Apesar de suas habilitações, logo Murray deu-se conta de estar diante de um desafio sobre-humano. Seria necessário um assistente!

Como num passe de mágica, surge Dr. W. C. Minors: este misterioso acadêmico, sabendo do projeto, remeteu uma carta ao Dr. Murray – estava disposto a colaborar. Um acadêmico que caiu do céu? O Dr. Murray, entre confuso sobre o desconhecido e com medo de transparecer sua desconfiança, respondeu ao Dr. Minors, simulando aceitar a ajuda. Talvez, pensava, Minors até nem estivesse mais interessado…


A segunda carta de Minors convenceu Murray que seu colega desconhecido era um gênio. Não demorou muito e ambos passaram a colaborar através de correspondências. As sugestões e contribuições do Dr. Minors eram cada vez mais valiosas. Apesar disto…


Sequer um encontro houvera entre os eruditos até então! Do Dr. Minors apenas se sabia o endereço: Crowthorne, Inglaterra. Decidido a conhecer seu colaborador mais próximo, o Dr. Murray convidou-o a ir para Oxford através de uma carta. A missiva que se seguiu contava da impossibilidade do Dr. Minors, por razões físicas, de visitar o colega. Porém, o Dr. Murray seria bem-vindo em sua residência.


Em alguns dias, o Dr. Murray viajou até a Wellington College Station; lá, um cavalheiro uniformizado o escoltou até a residência de seu genial correspondente. Para o choque de Murray, ele não encontrou um campus universitário ou a residência de um acadêmico excêntrico – pior: o Dr. Minors era interno no Broadmoore Asylum, que tratava de criminosos insanos! O maior colaborador do Oxford English dictionary não passava de um lunático perigoso!


Sobre o Dr. Minors, “é suficiente dizer que temos aqui um homem cujo conhecimento excedeu sua vida… cuja deslumbrante demonstração de discursos foi somente ultrapassada por seu confuso espetáculo de corrupção.”[1] Conhecimento, por si só, não possui o poder de transformar a conduta de vida. Mesmo que estejamos tratando de conhecimento da Bíblia.


Por vezes me surpreendo com o quanto as pessoas conhecem sobre a Bíblia ou a respeito de doutrinas, o que é, sem dúvida, algo positivo. Porém, se em sua experiência você tem decorado versículos bíblicos, e, ainda assim, fracassando espiritualmente nos mesmos pontos, já passa da hora de conseguir algo além de uma boa memória. Permita-me ilustrar:

A PARÁBOLA DO LIVRE-DOCENTE

Então, o livre-docente dirá também aos que estiverem à sua esquerda: apartai-vos de mim, malditos, para a reclusão, junto aos tolos e ignorantes.


Porque vocês tinham a Bíblia, mas não examinaram todos os manuscritos disponíveis em Grego e Hebraico;


Porque vocês pregavam, mas não utilizavam meticulosamente comentários, concordâncias e Atlas bíblicos;



Porque vocês davam estudos bíblicos, mas deixaram de se preparar cursando o seminário teológico e fazendo uma especialização em Arqueologia bíblica em Jerusalém;



Porque vocês testemunharam, mas foram incapazes de preparar uma dissertação breve, com quatrocentas páginas de texto (fora a bibliografia) a respeito da história de sua denominação religiosa;


Toda vez que deixaste de estudar, deixaste de crer!


Por favor, não quero minimizar a importância do estudo. Nossa cultura brasileira já é bem-sucedida em fazê-lo. Ocorre que, de fato, é uma ilusão medir o cristianismo pelo que você conhece; cristianismo se mede pelo Deus que nós conhecemos através de uma convivência poderosa o suficiente para moldar nossa visão sobre quem somos, sobre a vida, sobre os valores e sobre nosso propósito em estar neste mundo. Conhecimento sem mudança é intelectualismo vazio, incapaz de impactar tanto a nós mesmos como os que nos cercam.


Mas, a exemplo do Dr. Minors, um grande número de cristãos tem seu discurso contrariado pela prática. Vera Paiva, professora da USP, e coordenadora de estudos sobre a sexualidade, especialmente entre jovens pertencentes a gupos religiosos, explicando o aumento da iniciação sexual antes dos dezenove anos de idade, afirma:


“Quero chamar a atenção para o seguinte: mesmo diante dos dogmas, as pessoas conseguem ser sujeitas de sua própria sexualidade. Veja que esse estudo envolveu jovens que são líderes religiosos na sua comunidade. Eles participam, são ativos, militam. Os evangélicos afirmam que sexo fora ou antes do casamento é pecado e permitem ou mesmo recomendam contraceptivos, mas dentro do matrimônio. Quando você vai ver, uma proporção imensa deles transou antes do casamento - e sem preservativo. Então dizem uma coisa e fazem outra.”[2]


Isso não acontece, evidentemente, apenas no aspecto da sexualidade, mas envolve diversas facetas da experiência. Ocorre que nossa época vê com desconfiança tudo quanto se relacione com regras. Há alguns anos, alguém detectou esse sentimento e traduziu na seguinte declaração:
“‘hoje em dia, um número crescente de pessoas sente cada vez menos restrições ou inibições interiores contra a desobediência de qualquer lei ou código moral que interfira em seus desejos ou impulsos particulares. Enquanto os estigmas sociais que eram atribuídos à quebra da lei e desvio da moral tradicional se enfraquecem, a distinção entre liberdade e libertinagem torna-se cada vez mais obscurecida no espírito do indivíduo. ‘A lei é vista como um inimigo a ser destruído ou passado para trás’. No final das contas, o único ‘pecado’ é ser ‘apanhado’.’” [3]


Aliás, não é a toa que um dos Best-sellers de espionagem tenha o curioso título: “O décimo primeiro mandamento: não te deixarás apanhar”![4] Muitos cristãos parecem guardar apenas este mandamento…


A religião já não significa o mesmo para nossa geração em relação o que até então significara; testemunhamos um espírito religioso que se desenvolve “longe do controle e tutela institucionais”, que se multiplica em “formas originais de crença”. Tais crenças estão baseadas na “manifestação do divino”, não como produto de fé na Bíblia, mas, sim, devido à influência de um misticismo crescente.[5]

Essa nova religiosidade não busca a “verdade absoluta”, porque vê o “mundo espiritual” como algo que “não tem fronteiras”; agora o que importa são as “preferências” e “escolhas” do indivíduo – “Eu vou acreditar naquilo de que gosto e que me faz bem agora. Vou crer no que eu quiser neste momento.”

Mas as escolhas do indivíduo estão diretamente relacionadas com as da tribo, ou seja, de outros indivíduos, que partilham do mesmo gosto, opinião e afinidades. As tribos são, portanto, “grupos de interesses homogêneos.”[6] Por causa do novo fenômeno religioso moderno, as crenças se diluem e se misturam (chamamos a isso de sincretismo religioso).

Não é a primeira vez na história do povo de Deus que a fé verdadeira fica ameaçada por uma salada de crenças; sempre, em períodos como o que vivemos, Deus atua no sentido de levantar pessoas para viverem corajosamente os princípios revelados. Pessoas que possuam a visão correta de Deus, de si mesmas e de sua missão. Pessoas que saibam no que crêem e porque devem crer de uma determinada forma. Mais ainda: Deus levanta o tipo de gente que pratique com coerência aquilo que é a verdade instruída por Ele. Em seu discurso de posse do primeiro mandato, em 1º de Janeiro de 2003, o presidente Lula declarou a respeito da reforma agrária: “As terras produtivas justificam-se por si mesmas.” Um princípio similar se revela na vida espiritual: os frutos que você produz revelam quem você é. Há um caminho para isso:

“Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Romanos 12:2, NVI.

Devemos rejeitar as visões distorcidas deste mundo, suas falsas filosofias e correntes de pensamento contrárias à verdade bíblica; em seguida, devemos fazer diariamente um up-date, uma renovação, que começa na mente, apropriando-nos da Revelação divina (lendo a Bíblia, estudando, buscando compreendê-la); finalmente, estas ações concretas nos levarão à prática – experimentar e comprovar a vontade celeste em nossa própria vida cotidiana, em todos os seus aspectos. Num mundo cego espiritualmente, é preciso ter dois olhos, e bem abertos, para enxergar corretamente a realidade.


[1] Recontei o episódio a partir de Greg Herrick, “The Life of the Mind”, disponível em http://www.bible.org/page.php?page_id=22. Herrick, por sua vez, cita como fonte da história Paul Harvey, Jr. Paul Harvey's The Rest of the Story (New York: Bantam, 1997).

[2] Mônica Manir, “Com fervor e autonomia”, disponível em http://www.estadao.com.br/suplementos/not_sup177540,0.htm.

[3] Clare Boothe Luce, “If Precente Social Trends Continue, Democracy ‘Is Bound to Collapse’”, U.S. News and World Report, 5 de Julho de 1976, p. 65 e 66, conforme citado em Jerry White, “Honestidade, moralidade e consciência” (Rio de Janeiro, RJ: JUERP, 1990), 3ª ed.

[4] Jeffrey Archer , “O décimo primeiro Mandamento: não te deixarás apanhar”, em Seleções de Livros, Lieratura Estrangeira (Rio de Janeiro, RJ: Editora Reader's Digest do Brasil Ltda, 2001).

[5] Neste ponto, vale nos lembrarmos de que a própria mística (termo equivalente para misticismo) é definida como “uma experiência subjetiva e pessoal cujo centro é a idéia de união com Deus ou com o princípio fundamental de toda a realidade.” Carlos Eduardo Sell e Franz Josef Brüseke, “Mística e Sociedade” (Itajaí, SC: Universidade do Vale do Itajaí; São Paulo, SP: Paulinas, 2006), p. 18, ênfase suprida. Se a mística é subjetiva e pessoal, não é de se estranhar que a nova religiosidade, moldada por ela, apresente-se com estas duas características.

[6] Robson Ramos, “Evangelização no mercado pós-moderno” (Viçosa, MG: Editora Ultimato Ltda, 2003), pp. 16, 86, 91 e 92. Para uma análise do influxo da religiosidade moderna na liturgia e músicas cristãs, ver Douglas Reis, “A música sacra na cosmovisão adventista: analizando e interpretando conceitos de Ellen White” parte 2, disponível em
http://questaodeconfianca.blogspot.com/2007/09/msica-sacra-dentro-da-cosmoviso.html e Douglas Reis, “A canção e a vida:”, disponível em http://questaodeconfianca.blogspot.com/2008/02/cano-e-vida-coerncia-necessria-entre-o.html.
Voltar ao Topo Ir em baixo
Ver perfil do usuário
 
Só conhecimento não basta
Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo 
Página 1 de 1
 Tópicos similares
-
» TOMAR CONHECIMENTO RESULTADO DA PESQUISA SOCIAL 13/03/2012
» Agradecimentos para vocês que dividem seu conhecimento
» MEU POVO ESTA SENDO DESTRUIDO POR FALTA DE CONHECIMENTO - Oséias 4:6
» Releia os itens sobre informação,conhecimento
» Basta apenas uma Palavra Sua Senhor

Permissão deste fórum:Você não pode responder aos tópicos neste fórum
Fórum Adventista :: Teologia :: Acervo Teológico Adventista :: Textos-
Ir para: