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 O martírio no cristianismo primitivo

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Ronaldo
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MensagemAssunto: O martírio no cristianismo primitivo   9/1/2009, 8:30 pm

Gustavo escreveu:
A história do cristianismo é muito rica, e por isto a equipe do fórum Atos dá inicio aqui, ao ciclo de discussões sobre os vários fatos que marcaram sua história.
E se vamos iniciar este ciclo, nada mais justo do que começar pelos primeiro mártires cristãos. O martírio era considerado por cristãos antigos, como uma dádiva. Eusébio de Cesaréia, por exemplo, falava na "coroa do martírio". Depois de 2000 anos de cristianismo, o cristianismo mudou bastante. O martírio ainda acontece, mas há um sentimento bem diferente em relação a ele do que nos primeiros séculos de cristianismo.
Propomos aqui levantar informações sobre:
    1. Por que os cristãos começaram a ser perseguidos em Roma

    2. O que pensava os primeiros cristãos sobre o martírio

    3. Como a situação dos cristãos em Roma mudou

    4. Como foi encarado o martírio em séculos posteriores ao império de Constantino.

    5. Como se encara o martírio hoje

A discussão deste tema contribui em parte para a próxima discussão que a equipe do fórum Atos irá disponibilizar, que é a discussão sobre o movimento monástico.
Como info-tópico, este tópico segue a proposta já feita no tópico: http://www.e-cristianismo.com.br/forum/viewtopic.php?f=6&t=8
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MensagemAssunto: Re: O martírio no cristianismo primitivo   9/1/2009, 8:31 pm

Gustavo escreveu:
Sobre os motivos que levaram os cristãos a serem perseguidos, deve-se dizer primeiro que não se limitam a um motivo. Variam com o tempo, pois nem sempre os cristãos nos primeiros 3 séculos de cristianismo foram perseguidos.
Para iniciar o assunto, vamos falar sobre os primeiros perseguidores dos cristãos: os judeus. Para tanto, vou postar um trecho de Uma história ilustrada do cristianismo, de Justo González, livro 1, A era dos mártires, página 49:
Citação :
A nova seita judaica
Os primeiros cristãos não criam que pertenciam a uma nova religião. Eles eram judeus, e a principal diferença que os separava do resto do judaísmo era que criam que o Messias tinha vindo, enquanto que os demais judeus ainda aguardavam o seu advento. Sua mensagem aos judeus não era, portanto, que tinham de deixar de ser judeus, mas ao contrário, agora a idade messiânica havia sido inaugurada, dessa forma deviam ser melhores judeus. De igual modo, a primeira pregação aos gentios não foi um convite para aceitar uma nova religião recém criada, mas foi o convite de fazer-se participante das promessas feitas a Abraão e sua descendência. Convidaram os gentios a se fazerem filhos de Abraão segundo a fé, já que não podiam sê-los segundo a carne. E a razão para que este convite fosse possível era que, desde os tempos dos profetas, o judaísmo havia crido que, com o advento do Messias, todas as nações seriam trazidas a Sião. Para aqueles cristãos, o judaísmo não era uma religião rival do cristianismo, mas sim a mesma religião, muito embora os que a seguissem não entendessem que as profecias já se haviam cumprido.
Do ponto de vista dos judeus não cristãos, a situação era mesma. O cristianismo não era uma nova religião, mas sim uma seita herética dentro do judaísmo. Já vimos que o judaísmo do século primeiro não era uma unidade monolítica, mas que havia diversas seitas e opiniões. Portanto, ao aparecer o cristianismo, os judeus não o viam senão como mais uma seita.
A conduta daqueles judeus em relação ao cristianismo pode ser compreendida se nos colocarmos em seu lugar, e virmos o cristianismo, a partir do seu ponto de vista, como uma nova heresia que ia de cidade em cidade tentando os bons judeus a se tornarem hereges. Ademais, naquela época - e não sem fundamentos bíblicos - muitos judeus criam que a razão pela qual haviam perdido sua antiga independência e haviam sido reduzidos ao papel de súditos do Império, era que o povo não havia sido suficientemente fiel à fé de seus antepassados. Portanto, o sentimento nacionalista e patriótico se exacerbava diante da possibilidade de que estes novos hereges pudessem uma vez mais provocar a ira de Deus sobre Israel.
Por estas razões, em boa parte do Novo Testamento os judeus perseguem os cristãos, que por sua vez encontram refúgio nas autoridades romanas. Isto se pode ver, por exemplo, quando alguns judeus em Corinto acusam Paulo diante do Procônsul Gálio, dizendo que "este persuade os homens a adorar a Deus de modo contrário à lei", e Gálio responde: "Se fosse, com defeito, alguma injustiça ou crime da maior gravidade, ó judeus, de razão seria atender-vos, mas se é questão de palavra, de nomes e de vossa lei, tratai disso vós mesmos; eu não quero ser juiz destas cousas" (Atos 18:14-15). E mais tarde, quando se produz um motim no Templo porque alguns acusam Paulo de haver introduzido um gentio no recinto sagrado, e os judeus tratam de matá-lo, são os oficiais romanos que salvam a vida do apóstolo.
Bem, o autor lembra muito bem que bem no princípio, o governo romano não perseguia cristãos. Quem os perseguia eram os judeus, e os motivos apresentados pelo autor são bem convincentes. Podemos ver o reflexo desta boa relação dos cristãos com o governo romano nos escritos de Paulo, que são os primeiros escritos cristãos. Mais especificamente em Romanos 13, Paulo fala muito bem dos governos.
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MensagemAssunto: Re: O martírio no cristianismo primitivo   9/1/2009, 8:31 pm

Gustavo escreveu:
Bem, esta situação se estendeu até a destruição de Jerusalém... Depois disto, ficou claro para os romanos que o cristianismo não era a mesma coisa que o judaísmo... E assim começa uma série de perseguições. Justo González novamente nos relata...
Citação :
Entretanto, à medida que o cristianismo foi se estendendo cada vez mais entre os gentios e a proporção de judeus dentro da igreja foi diminuindo, tanto cristãos como judeus e romanos foram estabelecendo distinções cada vez mais claras entre o judaísmo e o cristianismo. Há também certas indicações de que, em meio ao crescente sentimento nacionalista que levou os judeus a se reberalem contra Roma e que culminou na destruição de Jerusalém, os cristãos - especialmente os gentios entre eles - trataram de mostrar claramente que eles não formavam parte desse movimento. O resultado de tudo isto foi que as autoridades romanas enfrentaram pela primeira vez o cristianismo como uma religião à parte do judaísmo. Foi então que começou a história dos dois séculos e meio de perseguições por parte do Império Romano. Nesse contexto a perseguição sob Nero foi de enorme importância, não tanto por sua magnitude, mas por ter sido a primeira de uma larga série, de crueldade sempe crescente.
Por que Nero é importante para este tema? Por que ele foi o primeiro imperador romano a perseguir cristãos...Ele não tinha uma boa reputação entre os romanos. Continuando com Justo González:
Citação :
Assim estavam as coisas quando, na noite de 18 de julho do ano 64, estalou um enorme incêndio em Roma. Ao que parece, Nero se encontrava, na ocasião, em sua residência de Antium, a umas quinze léguas de Roma, e assim que se soube o que sucedia correu a Roma, onde tratou de organizar a luta contra o incêndio. Para os que haviam ficado sem refúgio, Nero fez abrir seus próprios jardins e vários outros edifícios públicos. Mas tudo isto não bastou para afastar as suspeitas que logo caíram sobre o imperador a quem muitos já tinham por louco. O fogo durou seis dias e sete noites e depois voltou a se acender em diversos lugares durante três dias mais. Dez dos catorze bairros da cidade foram devorados pelas chamas. Em meio a todos seus sofrimentos, o povo exigia que se descobrisse o culpado, e não faltava quem se inclinasse a pensar que o próprio imperador havia ordenado o incêndio da cidade para poder reconstruí-la a seu gosto, como um grande monumento à sua pessoa. O historiador Tácito, que provavelmente se encontrava então em Roma, conta vários dos rumores que circulavam, e ele mesmo parece dar a entender a sua opinião, pela qual o incêndio havia começado acidentalmente num depósito de azeite.
Mas cada vez mais as suspeitas recaíam sobre o imperador. De acordo com os rumores, Nero havia passado boa parte do incêndio no alto da torre de Mecenas, no cume do Palatino, vestido como um ator de teatro, tangendo sua lira e cantando versos acerca da destruição de Tróia. Logo começou a propalar-se que o imperador, em seus desatinos de poeta louco, havia incendiado a cidade para que o sinistro lhe servisse de inspiração. Nero fez todo o possível para afastar as suspeitas de sua pessoa. Mas todos os seus esforços seriam inúteis enquanto não se fizesse recair a culpa sobre outro. Dois dos bairros que não haviam queimado, eram as zonas da cidade em que havia mais judeus e cristãos. Portanto, o imperador pensou que seria mais fácil culpar os cristãos.
O historiador Tácito, parecia crer que o fogo fora um acidente, portanto, a acusação feita contra cristãos seria falsa. Ele mesmo nos conta o sucedido:
Citação :
Apesar de todos os esforços humanos, da liberalidade do imperador e dos sacrifícios oferecidos aos deuses, nada bastava para apartar as suspeitas nem para destruir a crença de que o fogo havia sido ordenado. Portanto, para destruir este rumor, Nero fez aparecer como culpados os cristãos, uma gente odiada por todos por suas abominações, e os castigou com mui refinada crueldade. Cristo, de quem tomam o nome, foi executado por Pôncio Pilatos durante o reinado de Tibério. Detida por um instante, esta superstição daninha apareceu de novo, não somente na Judéia, onde estava a raiz do mal, mas também em Roma, esse lugar onde se narra e encontram seguidores todas as coisas atrozes e abomináveis que chegam desde todos os rincões do mundo. Portanto, primeiro foram presos os que confessaram (ser cristãos), e baseadas nas provas que eles deram foi condenada uma grande multidão, ainda quen ão os condenaram tanto pelo incêndio mas sim pelo seu ódio à raça humana. (Anais, 15:44).
Estas palavras de Tácito são valiosíssimas, pois constiuem um dos mais antigos testemunhos que chegaram até nossos dias do modo em que os pagãos viam os cristãos. Ao ler estas linhas, torna-se claro que Tácito não cria que os verdadeiros culpados de terem incendiado a Roma fossem os cristãos. Ainda mais, a "refinada crueldade" de Nero não recebe sua aprovação. Mas, ao mesmo tempo, este bom romano, pessoa culta e distinta em sua época, crê muito daquilo que dizem os rumores acerca das "abominações" dos cristãos, e de seu "ódio pela raça humana". Tácito e seus contemporâneos não nos dizem em que consistiam estas "abominações" que supostamente praticavam os cristãos. Teremos que esperar até o século segundo para encontrar documentos em que se descrevem esses rumores maliciosos. Mas seja o que for, o fato é que Tácito crê nesses rumores, e pensa que os cristãos odeiam a humanidade. Isto se compreende se recordarmos que todas as atividades da época - o teatro, o exército, as letras, os esportes, etc. - estavam tão ligadas ao culto pagão que os cristãosse viam obrigados a se ausentarem delas. Portanto, diante dos olhos de um pagão que amava sua cultura e sua sociedade, os cristãos pareciam ser misântropos que odiavam toda a raça humana.
Mas Tácito prossegue, contando-nos o sucedido em Roma por causa do grande incêndio:
Citação :
Além de matá-los (aos cristãos) fê-los servir de diversão para o público. Vestiu-os em peles de animais para que os cachorros os matassem a dentadas. Outros foram crucificados. E a outros acendeu-lhes fogo ao cair da noite, para que a iluminassem. Nero fez que se abrissem seus jardins para esta exibição, e no circo ele mesmo ofereceu um espetáculo, pois se misturava com as multidões, disfarçado de condutor de carruagem, ou dava voltas em sua carruagem. Tudo isto fez com que despertasse a misericórdia do povo, mesmo contra essas pessoas que mereciam castigo exemplar, pois via-se que eles não eram destruidos para o bem público, mas para satisfazer a crueldade de uma pessoa. (Anais 15:44)
Uma vez mais, vemos que este historiador pagão, sem mostrar simpatia alguma pelos cristãos, dá a entender que o castigo era excessivo, ou ao menos que a perseguição teve lugar, não em prol da justiça, mas por capricho do imperador. Além disso, nestas linhas temos uma descrição, escrita por uma pessoa que não foi cristã, das torturas a que foram submetidos aqueles mártires.
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MensagemAssunto: Re: O martírio no cristianismo primitivo   9/1/2009, 8:32 pm

Gustavo escreveu:
Vamos observar o que diz Eusébio de Cesaréia sobre Nero, e vamos comparar com o que já foi dito:
Citação :
A perseguição sob Nero, em que Paulo e Pedro foram honrados com martírio pela causa da religião em Roma.
Mas Nero, tendo o governo firmemente estabelecido sob si e, desse modo, lançando-se em projetos nefandos, começou a tomar armas contra a própria religião que reconhece um Deus Supremo. Aliás, a descrição da grandeza da perversidade desse homem não é compatível com nosso objetivo presente; e muitos têm registrado sua história nas mais precisas narrativas, e quem desejar pode admirar por elas sua extraordinária loucura. Sob essa influência, ele não passou a destruir tantos milhares de acordo com algum plano, mas com matança indiscriminada tal, que nem poupava seus amigos mais caros e chegados. A própria mãe e esposa, com muitos outros, seus parentes mais próximos, matou como se fossem estranhos e inimigos, com vários tipos de morte. E, de fato, além de seus outros crimes, ainda isso lhe faltava para completar o catálogo: ser o primeiro dos imperadores a se apresentar como inimigo da piedade para com Deus. Esse fato é registrado pelo romano Tertuliano, com as seguintes palavras: "Examinai vossos registros: ali encontrareis que Nero foi o primeiro a perseguir essa doutrina, especialmente quando, depois de dominar todo o Ocidente, exerceu sua crueldade contra todos em Roma. Tal é o homem de quem nos orgulhamos ter sido o líder de nossa punição, pois aquele que sabe quem ele era, talvez também saiba que nada que não fosse o grande e bom seria condenado por Nero".
Dessa maneira aclamando-se publicamente como o principal inimigo de Deus, Nero foi conduzido em sua fúria a assassinar os apóstolos. Relata-se, portanto, que Paulo foi decapitado em Roma e que Pedro foi crucificado sob seu governo. E esse relato é confirmado pelo fato de que os nomes de Pedro e Paulo ainda hoje permanecem nos cemitérios daquela cidade. Ora, de igual maneira, certo escritor eclesiástico de nome Caio, nascido na época que Zeferino era bispo de Roma, em disputa com Próculo, o líder da seita frígia apresenta a seguinte declaração com respeito aos lugares em que os tabernáculos terrenos dos mencionados apóstolos foram depositados: "Mas posso indicar", afirma ele, "os despojos dos apóstolos, pois se fores ao Vaticano ou à Via Ostiana encontrarás os despojos dos que lançaram o fundamento desta igreja. E que ambos foram martirizados na mesma época testemunha Dionísio, bispo de Corinto, em seu discurso endereçado aos romanos: 'Assim, igualmente vós, mediante esta admoestação, juntais a semente florescente plantada por Pedro e Paulo em Roma e Corinto. Pois ambos tendo plantado a nós em Corinto, igualmente nos instruíram e, tendo de igual maneira ensinado na Itália, sofreram martírio quase na mesma época'". Acrescentei esse testemunho para que a verdade da história possa ser ainda mais confirmada. - História Eclesiástica, Eusébio de Cesaréia, Editora CAPD, página 75 e 76.
Então, Eusébio através do testemunho de outras pessoas, alega inclusive que os apóstolos Paulo e Pedro foram martirizados no governo de Nero.
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MensagemAssunto: Re: O martírio no cristianismo primitivo   9/1/2009, 8:32 pm

Gustavo escreveu:
Continuando a história das perseguições ao cristianismo,temos a perseguição sob Domiciano, relatada aqui por Justo González.
Citação :
[size=150]A perseguição sob Domiciano[/size]
No ano 81 Domiciano sucedeu ao imperador Tito. A princípio, seu reino foi tão benigno à nova fé como o haviam sido o de seus antecessores. Mas no final do seu domínio desatou-se novamente a perseguição.
Não sabemos com certeza por que Domiciano perseguiu os cristãos. Sabemos sim que Domiciano amava e respeitava as velhas tradições romanas, e que boa parte de sua política imperial consistiu em restaurar essas tradições. Portanto, era de se esperar que se opusesse ao cristianismo, que em algumas regiões do Império havia gano muitíssimos adeptos, e que em todo caso se opunha tenazmente à antiga religião romana. Além disso, agora que já não existia o Templo de Jerusalém, Domiciano decidiu que todos os judeus deviam enviar às arcas imperiais a oferta anual que antes mandavam a Jerusalém. Quando alguns judeus negaram a fazê-lo ou mandavam o dinheiro ao mesmo tempo que deixavam bem claro que Roma não havia ocupado o lugar de Jerusalém, Domiciano começou a perseguí-los e a exigir o pagamento da oferta. Já que ainda não estava totalmente delimitada a relação do judaísmo com o cristianismo, os funcionários imperiais começavam a pressionar todos os que praticavam "costumes judaicos". Assim se desatou uma nova perseguição que parece haver sido dirigida, não somente contra os cristãos, mas também contra os judeus.
Como no caso de Nero, parece que a perseguição não foi igualmente severa em todo o Império. De fato, é só de Roma e da Ásia Menor que temos notícias fidedignas acerca da perseguição.
Em Roma, o imperador fez executar ao seu parente Flávio Clemente e a sua esposa Flávia Domicila. Foram acusados de "ateísmo" e de "costumes judaicos". Já que os cristãos adoravam um Deus invisível, em geral os pagãos os acusavam de serem ateus. Portanto, é muito provável que Flávio Clemente e sua esposa tenham sido mortos por serem cristãos. Estes são os únicos dois mártires romanos no tempo de Domiciano que conhecemos pelo nome. Mas vários escritores antigos afirmam que foram muitos, e uma carta escrita pela igreja de Roma à de Corinto pouco depois da perseguição se refere a "os males e provas inesperadas e seguidas que sobrevieram a nós". (I Clemente 1).
GONZÁLEZ, Justo L., Uma história ilustrada do Cristianismo, a Era dos Mártires, Volume 1, Editora Vida Nova, páginas 58 e 60.
O fim do império de Domiciano foi o fim destas perseguições.

Gustavo escreveu:
Vamos dar continuidade ao tópico, falando das perseguições do segundo século:
Citação :
A correspondência entre Plínio e Trajano
Plínio Segundo, o Jovem, fôra nomeado governador da região da Bitínia - isto é, a costa norte do que hoe é a Turquia - no ano 111. Tudo o que sabemos de Plínio por outras fontes parece indicar que era um homem justo, fiel cumpridor das leis e respeitador das tradições e autoridades romanas. Em Bitínia, entretanto, apresentou-se-lhe um problema que o mantinha perplexo. Alguém fez chegar a ele uma acusação anônima, a qual continha uma longa lista de cristãos. Plínio nunca havia assistido a um julgamento contra os cristãos e, portanto, precisava de experiência no assunto. Ao mesmo tempo, o recém-nomeado governador sabia que havia leis imperiais contra os cristãos e, portanto, começou a fazer pesquisas.
Ao que parece, o número dos cristãos em Bitínia era notável, pois em sua carta a Trajano, Plínio diz que os templos pagãos estava praticamente abandonados e que não se encontravam compradores para a carne sacrificada aos ídolos. Além disso, Plínio diz ao Imperador, "o contágio desta superstição penetrou, não só nas cidades, mas também nos povoados e nos campos".
Em todo caso, Plínio fez trazer diante de si os acusados, e começou assim um processo mediante o qual o governador foi se inteirando pouco a pouco das crenças e das práticas dos cristãos. Houve muitos que negavam ser cristãos, e outros que diziam que, ainda que o haviam sido anteriormente, já não o eram. Plínio requereu deles que invocassem aos deuses, que adorassem ao imperador oferecendo vinho e incenso diante de sua estátua, e que maldissessem a Cristo. Que seguia suas instruções neste sentido, era posto em liberdade, pois de acordo com o que Plínio diz a Trajano, "é impossível obrigar aos verdadeiros cristãos fazerem estas cousas".
Mas os cristãos que persistiam em sua fé apresentavam a Plínio um problema muito mais difícil. Mesmo antes de receber a acusação anônima, Plínio tinha sido obrigado a presidir sobre o julgamento de outros cristãos que tinham sido delatados. Em tais casos, havia lhes oferecido três oportunidades de renunciar a sua fé, ao mesmo tempo que os ameaçava. Aos que persistiam, o governador condenara à morte, não pelo crime de serem cristãos, mas por sua obstinação e desobediência ante o representante do imperador. Agora, com a larga lista de pessoas acusadas de serem cristãs, Plínio se viu forçado a investigar o assunto com mais atenção. Em que consistia na verdade o crime dos cristãos?
A fim de encontrar resposta a esta pergunta, Plínio interrogou os acusados, tanto os que persistiam em sua fé, como os que a negavam. Tanto uns como outros, contaram ao governador o mesmo testemunho: Seu crime consistia em se reunir para cantar antifonalmente hino: "a Cristo como Deus", para fazer voto de não cometer roubos, adultérios ou outros pecados, e para uma refeição em que não se fazia cousa alguma contrária à lei e aos bons costumes. Já que algum tempo antes, seguindo as ordens do imperador, Plínio havia proibido as reuniões secretas, os cristãos já não se reuniam como antes. Perplexo diante de tais informações, Plínio fez torturar duas escravas que eram ministras da igreja; mas ambas as mulheres confirmaram o que os demais cristãos haviam dito. Tudo isto representava ao governador um problema difícil de justiça e jurisprudência: devia castigar aos cristãos só por levarem esse nome, ou era necessário provar algum crime?
Em meio a sua perplexidade, Plínio suspendeu os processos e escreveu a carta do imperador onde tomamos os dados anteriores.
A resposta do imperador foi breve. Segundo ele, não há uma regra geral que possa ser aplicada em todos os casos. Por um lado, o crime dos cristãos não era de tal natureza que devesse ser usado recursos do estado para buscá-los. Por outro lado, entretanto, se alguém os acusa e eles se negam a adorar aos deuses, devem ser castigados. Por último, o Imperador diz a Plínio que não deve aceitar acusações anônimas, que eram uma prática indigna de sua época.
Quase cem anos mais tarde o advogado cristão Tertuliano, no norte da África, oferecia o seguinte comentário acerca da decisão de Trajano, ainda vigente:
Citação :
Oh! Sentença necessariamente confusa! Nega-se a buscá-los como a inocentes; e manda castigá-los, como culpados. Tens misericórdia e és severa; dissimulas e castigas. Como evistas então censurar-te a ti mesma? Se condenas, por que não investigas? E se não investigas, por quê não absolves? (Apologia, 2)
Ora, ainda que a decisão de Trajano não tivesse sentido lógico, tinha um sentido político. Trajano compreendia o que Plínio dizia: que os cristãos, pelo simples fato de serem cristãos, não cometiam crime algum contra a sociedade ou contra o estado. Portanto, os recursos do estado deviam ser empregados em assuntos mais urgentes do que a procura dos cristãos. Mas, uma vez que um cristão era delatado e trazido diante dos tribunais imperiais, era necessário obrigá-lo a adorar os deuses do império ou castigá-lo. De outro modo, os tribunais imperiais perderiam toda autoridade.
Portanto, os cristãos eram castigados, não por algum crime que supostamente haviam cometido antes de serem delatados, mas por seu crime diante dos tribunais. Este delito tinha de ser castigado, em primeiro lugar, porque de outro modo diminuiría a autoridade desses tribunais e, em segundo lugar, porque ao negarem a adorar o imperador os cristãos estavam adotando uma atitude que nesse tempo se interpretava como rebelião contra a autoridade imperial. Com efeito, o culto ao imperador era um dos vínculos que uniam o Império, e negar-se em público a render esse culto equivalia a romper esse vínculo.
As indicações de Trajano não parecem haver sido criadas simplesmente em resposta à carta de Plínio, nem parecem tão pouco ter sido limitadas à província de Bitínia. Pelo contrário, através de todo o século segundo e boa parte do terceiro, esta política de não buscar os cristãos e, entretanto, castigá-los quando eram acusados, foi a política que se seguiu em todo o Império. Além disso, mesmo antes da carta de Trajano, essa parece ter sido a prática corrente, conforme se pode ver nas sete cartas de Inácio de Antioquia.
GONZÁLEZ, Justo, Uma história ilustrada do Cristianismo, livro 1, páginas 62 a 66
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MensagemAssunto: Re: O martírio no cristianismo primitivo   9/1/2009, 8:33 pm

Gustavo escreveu:
Bem, vimos como Justo González nos informa que Trajano envia uma carta a Plínio, dizendo que se perseguisse os cristãos apenas se denunciados. É neste tempo que Inácio de Antioquia sofre o martírio, provavelmente denunciado por inimigos dele em Antioquia, que defendiam algumas práticas judáicas.
Esta perseguição como vimos, teve reflexos nos escritos cristãos da época. Abaixo, um trecho do historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia:
Citação :
De como Trajano impediu que se perseguisse os cristãos
1. Tão grande foi realmente a perseguição que naquele tempo estendeu-se em muitos lugares contra nós, que Plínio Segundo, notável entre os governadores, inquieto pela multidão de mártires, relata ao imperador sobre o excessivo número dos que eram executados por sua fé, e no mesmo documento adverte que nunca foram surpreendidos cometendo nada ímpio ou contrário às leis, se não for pelo fato de levantarem-se à aurora para entoar hinos a Cristo como a um Deus, mas que adulterar e cometer homicídios e crimes do mesmo tipo também era proibido para eles, e que em tudo agem conforme as leis.
2. A resposta de Trajano foi promulgar um decreto do seguinte teor: que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse. Graças a isto extinguiu-se parcialmente a perseguição, que ameaçava apertar terrivelmente, mas nem por isso faltaram pretextos aos que queriam fazer-nos mal. Algumas vezes eram as populações, outras as próprias autoridades locais que preparavam os assédios contra nós, de forma que, ainda que sem perseguições manifestas, acenderam-se focos parciais, segundo as províncias, e grande número de crentes combateram em diversos gêneros de martírio.
3. O relato foi tomado da Apologia latina de Tertuliano, mencionada mais acima, traduzido, é como segue:
"Mesmo assim, encontramos que foi proibido até que nos persigam. Efetivamente, Plínio Segundo, governador de uma província , depois de condenar alguns cristãos e depô-los de suas dignidades, assustado por seu número e já não sabendo o que lhe restava fazer, consultou o imperador Trajano, alegando que, exceto por não quererem adorar os ídolos, nada de ímpio havia encontrado neles. Informava-lhe também o seguinte: que os cristãos se levantavam à aurora e cantavam hinos a Cristo como a Deus e que, para manter seu conhecimento, era-lhes proibido matar, cometer adultério, cobiçar, roubar e coisas parecidas. A isto Trajano respondeu que não se perseguisse a tribo dos cristãos, mas que se castigasse quem caísse." Também isto ocorreu neste tempo.
Eusébio de Cesaréia - História Eclesiástica, Livro 3 capítulo 33

Gustavo escreveu:
Eis aqui a carta de Plínio, na íntegra:
Citação :
Tenho por praxe, Senhor, consultar Vossa Majestade nas questões duvidosas. Quem melhor dirigirá minha incerteza e instruirá minha ignorância? Nunca presenciei nenhum julgamento de cristãos. Por isso ignoro as penalidades e investigações costumeiras, bem como as pautas em uso. Tenho muitas dúvidas a respeito de certas questões, tais como: estabelecem-se diferenças e distinções de acordo com a idade? Cabe o mesmo tratamento a enfermos e robustos? Aqueles que se retratam devem ser perdoados? A quem sempre foi cristão, compete gratificar quando deixa de sê-lo? Há de punir-se o simples fato de alguém ser cristão, mesmo que inocente de qualquer crime, o exclusivamente os delitos praticados sob esse nome?
Entretanto, eis o procedimento que adotei nos casos que me foram submetidos sob acusação de cristianismo. Aos incriminados pergunto se são cristãos. Na afirmativa, repito a pergunta segunda e terceira vez, ameaçando condená-los à pena capital. Se persistirem, condeno-os à morte. Não duvido que, seja qual for o crime que confessem, sua pertinácia e obstinação inflexíveis devem ser punidas. Alguns apresentam indícios de loucura; tratando-se de cidadãos romanos, separo-os para enviá-los a Roma.
Mas o que geralmente se dá é o seguinte: o simples fato de julgar essas causas confere enorme divulgação às acusações, de modo que meu tribunal está inundado com uma grande variedade de casos. Recebi uma lista anônima com muitos nomes. Os que negaram ser cristãos, considerei-os merecedores de absolvição. De fato, sob minha pressão, devotaram-se aos deuses e reverenciaram com incenso e libações vossa imagem colocada, para este propósito, ao lado das estátuas dos deuses, e, pormenor particular, amaldiçoaram a Cristo, coisa que um genuíno cristão jamais aceita fazer. Outros inculpados da lista anônima começaram declarando-se cristãos e, logo, negaram sê-lo, declarando ter professado esta religião durante algum tempo e renunciando a ela há três ou mais anos; alguns a tinham abandonado há mais de vinte anos. Todos veneraram vossa imagem e as estátuas dos deuses, amaldiçoando a Cristo. Foram unânimes em reconhecer que sua culpa se reduzia apenas a isso: em determinados dias, costumavam comer antes da alvorada e rezar responsivamente hinos a Cristo, como a um deus; obrigavam-se por juramento não a algum crime, mas à abstenção de roubos, rapinas, adultérios, perjúrios e sonegação de depósitos reclamados pelos donos. Concluído este rito, costumavam distribuir e comer seu alimento. Este, aliás, era um alimento comum e inofensivo. Eles deixaram essas práticas depois do edito que promulguei, de conformidade com vossas instruções, proibindo as sociedades secretas. Julguei ser mais importante descobrir o que havia de verdade nessas declarações através da tortura a duas moças, chamadas diaconisas, mas nada achei senão superstição baixa e extravagante. Suspendi, portanto, minhas observações na espera do vosso parecer. Creio que o assunto justifica minha consulta, mormente tendo em vista o grande número de vítimas em perigo. Muita gente, de todas as idades e de ambos os sexos, corre o risco de ser denunciada e o mal não terá como parar. Esta superstição contagiou não apenas as cidades, mas as aldeias e até as estâncias rurais. Contudo, o mal ainda pode ser contido e vencido. Sem dúvida os templos que estavam quase desertos são novamente freqüentados; os ritos sagrados há muito negligenciados, celebram-se de novo; vítimas para sacrifícios estão sendo vendidas por toda a parte, ao passo que, até recentemente, raramente um comprador era encontrado. Esses indícios permitem esperar que legiões de homens sejam susceptíveis de emenda, desde que tenham a oportunidade de se retratar.
Plínio, Epp. X (ad Trajanem), XCVI, Documentos da Igreja Cristã, H. Bettenson, págs. 28 a 30, Editora ASTE.
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MensagemAssunto: Re: O martírio no cristianismo primitivo   9/1/2009, 8:34 pm

Gustavo escreveu:
Seguindo o nosso estudo sobre as perseguições ao cristianismo, vamos falar mais agora sobre a perseguição promovida por Marco Aurélio. Para isto, estou colocando aqui o que o historiador Justo González fala sobre este episódio:
Citação :
Marco Aurélio era um filho de sua época, e como tal via os cristãos. Na única referência ao cristianismo que aparece em suas "Meditações", o imperador filósofo louva aquelas almas que estão dispostas a abandonar o corpo quando necessário, mas logo segue dizendo que tal disposição deve ser produto da razão, "e não da teimosia, como no caso dos cristãos" (Meditações, 11:3).
Além disso, também como filho de sua época, o filósofo que louvava o uso da razão sobre tudo, era supersticioso ao extremo. A cada passo pedia ajuda e direção de seus adivinhos, e ordenava que os sacerdotes oferecessem sacrifícios por um bom êxito em cada empresa. Durante os primeiros anos do seu reinado, as invasões, inundações, epidemias e outros desastres pareciam suceder uns aos outros sem trégua alguma. Logo correu a voz de que tudo isto se devia aos cristãos, que haviam atraído sobre o Império a ira dos deuses, e se desatou então a perseguição. Não temos indícios de que Marco Aurélio tenha pensado que os cristãos tinham a culpa do que estava acontecendo; mas tudo parece indicar que o imperador emprestou seu apoio à nova onda de perseguição, e que via com bons olhos este intento de regressar ao culto dos antigos deuses. Talvez, como Plínio anos antes, Marco Aurélio pensasse que era necessário castigar os cristãos, senão por seus crimes, pelo menos por sua obstinação. Em todo caso, temos informações bastante detalhadas de vários martírios que ocorreram sob o governo de Marco Aurélio.
GONZÁLEZ, Justo L. "A Era dos mártires, Uma história ilustrada do cristianismo", páginas 73 e 74.
Marco Aurélio era amplamente conhecido por ser culto. Vimos que ele até escreveu um conjunto de Meditações, onde cita uma vez apenas os cristãos, como obstinados. Foi durante esta perseguição que Justino, o Mártir, foi morto.
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O martírio no cristianismo primitivo
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