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 A Helenização de Israel e a doutrina da imortalidade da alma

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Ronaldo
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MensagemAssunto: A Helenização de Israel e a doutrina da imortalidade da alma   6/12/2008, 12:16 am

A Helenização de Israel

Após a morte de Alexandre foi Israel governado por dois regimes sucessivos. O Império Ptolemaico no sul, tendo o Egito como centro, que governou Israel de 301 a.C. a 198 a.C.. O Império Selêucida no norte, com base na Babilônia, trouxe a Israel um helenismo mais assertivo. Os reis Selêucidas, e especialmente Antíoco IV Epífanes (175-164 a.C.), implantam um acelerado processo de helenização dos vários povos e cidades da região. Desde o início houve uma profunda reciprocidade entre os mundos judeu e pagão. O judaísmo foi doador e receptor de novas disciplinas. Forma-se um forte partido pró-helênico, que pretende incrementar o avanço civilizatório grego e, por isso, está em luta com os judeus tradicionais e fiéis à Lei. A ocasião favorável aos partidários da helenização surge quando Onias III, o conservador sumo sacerdote, está em Antioquia cuidando dos interesses de seu povo e Antíoco IV assume o poder.

"Verificou-se desse modo, tal ardor de helenismo e tão ampla difusão de costumes estrangeiros (...) que os próprios sacerdotes já não se mostravam interessados nas liturgias do altar" (2Mc 4,13a.14a).

Um irmão de Onias III, Jasão (Joshua), oferece ao rei alta soma em dinheiro e um rápido programa de helenização dos judeus em troca do cargo de sumo sacerdote.

I Mc 1,11-13 comenta o caso do seguinte modo:

"Por esses dias apareceu em Israel uma geração de perversos (paránomoi) que seduziram a muitos com estas palavras: 'Vamos, façamos aliança com as nações circunvizinhas, pois muitos males caíram sobre nós desde que delas nos separamos'. Agradou-lhes tal modo de falar. E alguns de entre o povo apressaram-se em ir ter com o rei, o qual lhes deu autorização para observarem os preceitos (dikaiômata) dos gentios".

O termo paránomoi indica, segundo Dt 13,14, pessoas que fazem propostas de apostasia da Lei. Daí que "fazer aliança com as nações" indica renegar a Lei e seguir costumes gentios.

Também o dikaiômata tôn éthnôn (preceitos dos gentios) é significativo. Dikaíôma é usado pelos LXX para traduzir o hebraico derek ou mishpat (caminho, direito) significando obrigações legais. Observar os preceitos dos gentios significa, portanto, abandonar as normas da Lei e seguir leis gentias [Cf. SAULNIER, C., Histoire d'Israel III, pp. 110-111].

II Mc 4,7-10 descreve do seguinte modo os fatos:

"Entrementes, tendo passado Selêuco à outra vida e assumindo o reino Antíoco, cognominado Epífanes, Jasão, irmão de Onias, começou a manobrar para obter o cargo de sumo sacerdote. Durante uma audiência, ele prometeu ao rei trezentos e sessenta talentos de prata e ainda, a serem deduzidos de uma renda não discriminada, mais oitenta talentos. Além disso, empenhava-se em subscrever-lhe outros cento e cinqüenta talentos[28], se lhe fosse dada a permissão, pela autoridade real, de construir uma praça de esportes e uma efebia, bem como de fazer o levantamento dos antioquenos de Jerusalém. Obtido, assim, o consentimento do rei, ele, tão logo assumiu o poder, começou a fazer passar os seus irmãos de raça para o estilo de vida dos gregos".

Os judeus de Alexandria criaram uma cultura original, marcada por características judaicas e helenísticas, que influenciou a filosofia do mundo antigo e, em particular, do cristianismo primitivo. A idéia de uma alma separada do corpo, por exemplo, não se encontra no Antigo Testamento e é uma grande novidade trazida pelos apocalípticos (que se servem com mais liberalidade de conceitos estrangeiros); "alma" como essência pre-existente à vida humana surge em 2En 24:4-5, e é aparentemente a doutrina platônica que está presente no Eclo e em 4Mc. Os autores dessas considerações eram, provavelmente, judeus alexandrinos, que seguiam a ortodoxia helenística da região, distinta da Palestina. Em 4Esd encontramos a doutrina oriental relativa à formação do homem a partir dos quatro elementos (ar, água, terra e fogo) já citada por Fílon. Há uma distinção essencial entre os enfoques judaico e grego quanto à natureza humana - para os judeus, ela é una; para os gregos, há um claro dualismo corpo/alma. As referências da apocalíptica judaica a esse tipo de ensinamento são escassas, mas não podem ser ignoradas, introduzindo assim mais um elemento complicador para o estudo das relações Grécia / mundo judaico. [David S. Russell. The Method and Message of Jewish Apocalyptic. Philadelphia: The Westminster Press, 1964. Pp.147-148 e 153]

Origem e história do modelo antropológico binário (dualista) separando alma e corpo nada tem a ver com a revelação bíblica, mas, sim, com uma religião pagã do século VII ªC , a assim chamada "Religiã Órfica da Trácia", na Grécia antiga. A partir desta origem, a concepção binária ou dualista do homem passou por toda uma história de evolução e adaptação, até finalmente se fixar também no cristianismo.

Desde os primeiros séculos da era cristã, essa concepção se tornou o modelo dominante no cristianismo, sustentado pela filosofia do neoplatonismo e pela ideologia religiosa da gnose e de seu dualismo cosmológico.

As várias etapas desta história de absorção de concepções dualistas estão representadas no esquema:




Séc VII ªc – Religiões órficas da Trácia ---

Séc VI ªc Pitágoras – Dualismo ético

Séc IV ªC Platão – Dualismo ontológico

GNOSE – Dualismo cosmológico (origem: Pérsia) sécs II ªc e VI d.C

Doutrina Cristã

Séc II d.C Maniqueísmo Neoplatonismo

Séc IV d.C Agostinho

Séc XVII d.C : Dualismo cartesiano


É importante frisar que, a partir do século IV d.C, sobretudo depois de Agostinho, a compreensão cristã do destino humano após a morte baseia-se, cada vez mais, no modelo dualista helênico. Este modelo antropológico já era o dominante dentro do império greco-romano antes da era cristã, e depois do desaparecimento deste império, continuou dentro do pensamento cristão e permanece até os dias de hoje. Ele se fixou de tal maneira, que muitos cristãos estão convencidos de que estamos diante de um fato de revelação divina. Pensam que a base do modelo antropológico dualista seria a própria Bíblia.

Contra tal idéia é importante lembrar que o modelo antropológico tem suas raízes numa cultura alheia à da Bíblia. Ele entrou no cristianismo não por ser revelação divina, mas por razões culturais e ideológicas, ligadas a todo um processo de aculturaçao do cristianismo dos primeiros séculos.

O modelo dualista-binário do homem, conforme o qual este homem é composto de corpo e alma ( e a alma pode viver independente do corpo), não tem a sua raiz na Bíblia, mas na cultura pagã do helenismo.

O termo "alma" aparece centenas de vezes nas traduções do Antigo e Novo Testamento. Entretanto, com exceção dos poucos textos do judaísmo tardio, claramente influenciados pelo helenismo, Quando a Bíblia fala da alma, nunca quer designar com esta palavra, um princípio espiritual autônomo que poderia ser separado do corpo. Dentro de uma visão integrativa, os textos bíblicos apresentam o homem sempre como unidade indivisível, para quem a alma garante a potência de ser para o absoluto.

Os textos bíblicos em que se faz uma justaposição entre corpo e alma, foram, no passado, muitas vezes interpretados de maneira dualista e a partir de um enfoque da filosofia helênica. Isso, no entanto, é errado.

Exemplo típico: um trecho do Evangelho de Mateus, onde uma interpretação dualista falsificaria totalmente aquilo que a Bíblia quer dizer. Neste e em todos os outros textos nos quais aparecem as noções corpo e alma, a Bíblia não faz uma concepção binária do homem. Ela não separa corpo e alma como dois princípios opostos: ela, pelo contrário, já se baseia numa visão muito "moderna" da pessoa humana, compreendendo esta pessoa como um ser único, cuja integridade, exatamente por causa da sua alma, nunca poderá ser destruída e dividida.

"Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Temei antes aquele que pode destruir a alma e o corpo na geena" (Mt 10, 28).

O muito prestigiado manual de exegese "Regensburger Neues Testament" (1986, p 228) deixa transparecer isso de maneira bem clara:

"O texto não pressupõe uma alma sem corpo que sobrevive na morte, mas esclarece que Deus pode manter a vida inteira do homem também além da morte. (Psique não significa "alma" no sentido greco-helênico, mas a energia vital no homem.)"
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